QUEM É RUTH GUIMARÃES
(UMA BIO-BIBLIOGRAFIA)

Ruth Guimarães é, destacadamente, uma das mais importantes figuras do século XX, na literatura e na educação, no Vale do Paraíba e no Brasil. Como escritora, produziu 51 obras que abrangeram praticamente todos os gêneros literários – romance, contos, crônicas, biografias, pesquisas folclóricas, pesquisas filológicas, traduções, peças de teatro e poesia (essas inéditas). Contribuiu grandemente para a difusão das obras de Dostoievski no Brasil, tendo traduzido do francês um número expressivo de livros do autor russo, pela Editora Cultrix, mas traduziu também Alphonse Daudet, do francês, Clara Carta, do italiano, e Apuleio, do latim. Como educadora, foi professora de português e literatura por 35 anos, em escolas públicas e privadas do estado de São Paulo, mas também tomou iniciativas importantes como a criação de Academias de Letras (Cachoeira Paulista e Lorena, por exemplo), fundou o Museu do Folclore Valdomiro Silveira, hoje desativado, formou grupos de teatro, cineclubes e associações para geração de renda de mulheres pobres, além da Guarda-Mirim de Cachoeira Paulista, que preparou centenas de meninos e meninas para o mercado de trabalho.

Ruth Guimarães

Foi repórter da Revista do Globo, do jornal Folha de S. Paulo e da Revista Quatro Rodas, cronista nos jornais Folha de S. Paulo e ValeParaibano, articulista e crítica literária em jornais e revistas de São Paulo, Rio de Janeiro e Lisboa (Portugal): Correio Paulistano, A Gazeta, Diário de São Paulo, Folha da Manhã, Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo.
Participou ativamente do 1º Congresso Brasileiro de Folclore, da Sociedade Paulista de Escritores, do Centro de Pesquisas Folclóricas Mário de Andrade, da Comissão Estadual de Folclore, dos Festivais de Folclore de Olímpia. Foi membro do IEV – Instituto de Estudos Valeparaibanos e membro-fundadora da UBE – União Brasileira de Escritores. Em 1989, recebeu do Instituto de Estudos Valeparaibanos o Prêmio Cultural “Eugênia Sereno”.
Sua formação teve como base a USP – Universidade de São Paulo, onde cursou Letras Clássicas (latim e grego). Também cursou Dramaturgia e Crítica na Escola de Arte Dramática de Alfredo Mesquita. Foi aluna de Mário de Andrade. Privou da amizade dos principais nomes da literatura do século XX, entre eles Antonio Candido, Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Osman Lins, Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Mário Donato, Edgard Cavalheiro e outros.
Foi membro da Academia Paulista de Letras, tendo tomado posse em 18 de setembro de 2008, participando ativamente das sessões e dos debates até pouco antes de sua morte, precipitada em 21 de maio de 2014 por um AVC, quando contava 93 anos.

Nasceu em Cachoeira Paulista, no dia 13 de junho de 1920, em sítio do avô materno, o português José Botelho, guarda-chaves da Estrada de Ferro Central do Brasil, na rua do Aterro, atual Carlos Pinto, entre as barrancas do rio Paraíba e os trilhos da estrada de ferro. Aos dez anos de idade, publicou seus primeiros versos nos jornais locais “A Região” e “A Notícia”.

Foi viver em São Paulo, em 1938. Ingressou no curso de Letras Clássicas da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, onde foi aluna de Silveira Bueno, Antonio Soares Amora, Fidelino de Figueiredo, Roger Bastide e outros mestres de renome internacional. Ali conheceu Odilon Nogueira de Mattos, então secretário da faculdade. E foi colega de estudos de Erwin Rosenthal e Emir Macedo Nogueira.

Frequentou a Escola de Arte Dramática, de Alfredo Mesquita, estudando Dramaturgia e Crítica. Foi aluna e discípula de Mário de Andrade, que a iniciou nos estudos de folclore e literatura popular. Trabalhou para diversas editoras como revisora e tradutora e escreveu crônicas, artigos e crítica literária para jornais e revistas de São Paulo, Rio de Janeiro e Lisboa: Correio Paulistano, A Gazeta, Diário de São Paulo, Folha da Manhã, publicando contos no Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo e crônicas semanais para o jornal Folha de São Paulo. Produziu vários livros e traduções para a Editora Cultrix, onde trabalhou ao lado de José Paulo Paes.

Foi repórter das revistas Noite Ilustrada, Carioca, Globo, Semana Ilustrada, Senhora, Quatro Rodas, Realidade, Atualidades Literárias e Revista Lusitana (Portugal). Em 1946, lançou pela Editora da Livraria Globo seu primeiro livro, Água Funda, romance que retrata o universo rural e caipira do Vale do Paraíba paulista e mineiro, nas vertentes da serra da Mantiqueira, sucesso de público e crítica. Um dos primeiros críticos a lhe dar atenção foi Antonio Cândido, seu amigo até hoje e autor do prefácio da reedição lançada pela Editora Nova Fronteira em 2004. No lançamento de Água Funda, estiveram presentes personalidades como Amadeu de Queiroz, Guimarães Rosa e Lygia Fagundes Telles. O livro tem sido selecionado como leitura obrigatória de exames vestibulares importantes, como Fuvest, Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.

Seu segundo livro, Filhos do Medo, ampla pesquisa folclórica sobre o diabo e todas as manifestações demoníacas no imaginário do homem valeparaibano, valeu-lhe um verbete na Encyclopédie Française de la Pléiade, sendo Ruth Guimarães a única escritora latino-americana a receber esta distinção. Lecionou em colégios e faculdades: francês na Aliança Francesa de São Paulo, grego na Universidade de Taubaté, Folclore na Faculdade de Música Santa Cecília de Pindamonhangaba, Psicologia da Arte e Literatura Latina nas Faculdades Integradas Teresa D’Ávila em Lorena, Literatura Brasileira e Portuguesa na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Cruzeiro. Pesquisou durante mais de trinta anos as ervas e raízes medicinais, tendo deixado preparada uma enciclopédia em doze volumes sobre medicina natural. Fundou a Academia Cachoeirense de Letras e Artes, o Museu de Folclore Valdomiro Silveira e a Guarda Mirim de Cachoeira Paulista. Participou ativamente do 1º Congresso Brasileiro de Folclore, da Sociedade Paulista de Escritores, do Centro de Pesquisas Folclóricas Mário de Andrade, da Comissão Estadual de Folclore, dos Festivais de Folclore de Olímpia. É membro do Instituto de Estudos Valeparaibanos e da União Brasileira de Escritores. Em 1989, recebeu do Instituto de Estudos Valeparaibanos o Prêmio Cultural “Eugênia Sereno”. Além de mais de quarenta livros publicados, incluindo biografias, antologias e traduções do latim, do espanhol, do francês e do italiano, Ruth Guimarães participou da montagem da peça “Romaria”, dirigida por Miroel Silveira, com músicas de Almir Sater e Renato Teixeira. O Grupo de Teatro do SESC de São Paulo encenou a peça de sua autoria “A Pensão de Dona Branca”.

Depois de aposentada, voltou a residir em Cachoeira Paulista, no sítio herdado de seu avô materno, onde cuidava das suas plantas, galinhas e patos, pesquisava e escrevia seus livros, contos e crônicas, recebia os amigos, alunos e admiradores para a prosa gostosa e hospitaleira. Terminou a mais completa pesquisa sobre Pedro Malazarte, o herói mitológico popular. Deixou, incompleto, um romance intitulado “O Livro da Bruxa”. Foi casada por 51 anos com o primo, o fotógrafo e jornalista José Botelho Netto, amigo e companheiro de jornadas e pesquisas, morto em 2001. Tiveram nove filhos: Marta, Rubem, Antonio José, Joaquim Maria, Judá, Marcos, Rovana, Olavo e Júnia: poetas, jornalistas, professores.
Foi diretora do Departamento de Cultura da Prefeitura de Cruzeiro. Em seguida, assumiu a Secretaria de Cultura de Cachoeira Paulista, logo que eleita para a Academia Paulista de Letras, em 2008.
Depois de sua morte, vários de seus escritos inéditos foram transformados em livros, por esforço dos filhos, que criaram o Instituto Ruth Guimarães, funcionando na casa onde ela nasceu, à Rua Carlos Pinto, número 130. A Faro Editora, por exemplo, lançou uma coleção de quatro livros, em 2020, ano do centenário de nascimento de Ruth Guimarães: Contos Negros, Contos Índios, Contos do Céu e da Terra e Contos de Encantamento.
Segundo seu filho Joaquim Maria, no prefácio do livro “Crônicas Valeparaibanas”, lançado em 1996:
“Ruth Guimarães vive dizendo que quer arranjar tempo para se dedicar à bruxaria… Ruth vive sem tempo, mas já é uma bruxa – a bruxa boa que o folclore valeparaibano representa nas suas histórias como a simpática velhinha que ensina o caminho às almas perdidas, que destrói com artimanhas geniais os monstros para deixar passar os príncipes que vão, por sua vez, salvar as princesas transformadas em rãs e as donzelas amaldiçoadas pelas feiticeiras malvadas. É assim que Ruth quer continuar vivendo neste Vale do Paraíba que ela conta e reconta nos seus escritos deliciosos, pesquisados com o carinho de quem garimpa brilhantes. Na sua calma de cachoeirense, Ruth vem abrindo a alma, há 78 anos, para ser o relicário vivo das informações e da cultura valeparaibanas…”

BIBLIOGRAFIA RESUMIDA

LIVROS

Água Funda. Porto Alegre, Edição da Livraria do Globo, 1946;
Filhos do Medo. Porto Alegre, Editora Globo, 1950;
Mulheres Célebres. São Paulo, Editora Cultrix, 1960;
As Mães na Lenda e na História. São Paulo, Editora Cultrix, 1960;
Líderes Religiosos. São Paulo, Editora Cultrix, 1961;
Lendas e Fábulas do Brasil. São Paulo, Editora Cultrix, 1972;
Dicionário da Mitologia Grega. São Paulo, Editora Cultrix, 1972;
O Mundo Caboclo de Valdomiro Silveira. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora/Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo do Estado de São Paulo/Instituto Nacional do Livro, 1974;
Grandes Enigmas da História. São Paulo, Editora Cultrix, 1975;
Medicina Mágica: As simpatias. São Paulo, Global Editora, 1986;
Lendas e Fábulas do Brasil. São Paulo, Círculo do Livro, 1989;
Crônicas Valeparaibanas. São Paulo, Centro Educacional Objetivo/Fundação Nacional do Tropeirismo, 1992;
Contos de Cidadezinha. Lorena, Centro Cultural Teresa D’Ávila, 1996;
Vestuário. São Paulo, Donato Editora Ltda., Volume, s.d.;
“Esta é a segunda carta que lhe escrevo”, in “Cartas a Mário de Andrade”. Organização Fábio Lucas, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1993;
Água Funda. 2ªedição, com prefácio de Antonio Candido, São Paulo, Editora Nova Fronteira, 2004;
Calidoscópio – A Saga de Pedro Malazarte. São José dos Campos, JAC Editora, 2006.

TEATRO
A Pensão de Dona Branca
Romaria

TRADUÇÕES
Histórias Fascinantes, de Honoré de Balzac: seleção, tradução e prefácio – São Paulo, Editora Cultrix,1960;
Os Mais Brilhantes Contos de Dostoievski, de Feodor Mikhailovitch: introdução, seleção e tradução. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1966;
Contos de Dostoievski: introdução, seleção e tradução. São Paulo, Editora Cultrix, 1985;
Contos de Alphonse Daudet: seleção e prefácio. Tradução: Ruth Guimarães e
Rolando Roque da Silva. São Paulo, Editora Cultrix, 1986;
Contos de Balzac: seleção, tradução e prefácio. São Paulo, Editora Cultrix, 1986;
Os Melhores Contos de Alphonse Daudet: seleção e prefácio. Tradução:Ruth
Guimarães e Rolando Roque da Silva. São Paulo, Círculo do Livro, 1987;
Os Melhores Contos de F. Dostoievski: tradução, seleção e introdução. São Paulo, Círculo do Livro, 1987;
Os Melhores Contos de Balzac: seleção, tradução e prefácio. São Paulo, Círculo do
Livro,1988;
A Mulher Abandonada e outros contos de Balzac: seleção, tradução e prefácio. Rio de Janeiro, Ediouro, 1992;
Histórias Dramáticas, de F. Dostoievski: seleção tradução e prefácio sem
Identificação bibliográfica;
O Asno de Ouro, de Apuleio. Edições Ouro, s.d.;
A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, idem;
A Corrente, de Claras Cartas, do italiano. São Paulo, Editora Saraiva, s.d.

Em 2019, foi criado o Instituto Ruth Guimarães com o objetivo de preservar e difundir sua obra literária, além de promover atividades culturais na cidade e em toda a região.
O site do instituto é www.institutoruthguimarães.org.br

 


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