NELSON LORENA
Nelson Lorena, o primogênito de José Randolpho Lorena, nasceu em 21 de julho de 1902, cresceu e viveu sem nunca abandonar sua amada Cachoeira Paulista. Ali se casou aos vinte anos com Hilda Guimarães Cotia; enviuvou, casou-se novamente com Doralice Gonçalves de Barros e criou onze filhos. Mereceu o epíteto ‘O Artista Cachoeirense’ pela constante dedicação ao enaltecimento de sua terra natal, cultivando um bairrismo sadio, decantado de todas as suas formas de arte. E foi no ambiente tranquilo da pequena cidade que o seu espírito realizador encontrou os estímulos adequados para despertar a vigorosa fertilidade criativa que o elevaria à condição de grande patrimônio, artístico e cultural, do município.
Matriculado aos sete anos na Escola Masculina da Bocaina, demonstrou notável aplicação ao completar em apenas dois anos os quatro regularmente exigidos pelo curso primário. Contando quinze anos e sentindo-se vocacionado para o ensino, ingressou na Escola Normal de Guaratinguetá e quando ao final do segundo ano foi obrigado, por problemas familiares, a interromper os estudos, tornou-se autodidata.

Nelson Lorena
Estudando com afinco instruiu-se em História, Ciências, Religião e Filosofia, conseguiu habilitar-se como professor leigo e ensinou matemática, música, desenho técnico e trabalhos manuais na Escola Profissional Luís Carlos e no Ginásio Valparaíba, ambos em Cachoeira e lecionou Harmonia e Teoria Musical no Conservatório Musical de Guaratinguetá. Aos dezoito anos, ingressou como pintor na E. F. Central do Brasil; aprovado em sucessivos concursos chegou ao cargo de Oficial Administrativo, no qual se aposentou. Aos onze anos iniciou o aprendizado da Música com seu pai e, aos doze, enamorado, revela seus pendores artísticos compondo sua primeira valsa, cujo original encontra-se no acervo do Museu Maestro Lorena, em Cachoeira.
Aos 14 anos figura entre os músicos da Banda Musical XV de Novembro como o principal trompetista, executando com talento e habilidade os intrincados arranjos que o Maestro Lorena escrevia. Mais tarde, com o domínio de técnica especialíssima, adotaria o costume de fazer adormecer suas crianças ao som de suaves acalantos extraídos de seu trompete com surdina. Lecionando e exercendo funções administrativas para prover a subsistência da família, aos poucos foi se revelando e surpreendendo como cronista e autor literário, compositor e arranjador, artista plástico versátil, pintor memorialista, paisagista e retratista, cenógrafo, escultor e arquiteto, um artista completo.
Projetou com originalidade de estilo a construção de inúmeras casas residenciais e edifícios, sendo reconhecido e credenciado pelo CREA, mesmo sem formação em arquitetura. Carismático, sempre bem humorado e cativante, ao passo em que se expressa por meio de tantas e tão inesperadas formas de arte, acumula superlativos e enquanto segue perenizando fatos, pessoas e lugares, talvez sem suspeitar, engendra a imortalidade do criador através de suas próprias criações.
Quem visita Cachoeira Paulista não pode deixar de admirar na praça principal o monumento em bronze fundido, onde a baioneta em riste de um soldado defende os ideais democráticos da Revolução Constitucionalista de 1932; junto ao viaduto, a sua lembrança do dever da compaixão para com os menos favorecidos na estátua do mendigo Tonhão; o São Cristóvão na entrada da cidade, em permanente vigília pelos que por ali circulam diariamente; no Parque Ecológico a celebração da liberdade, na estátua do escravo com os grilhões finalmente quebrados. As intrigantes pinturas em representações a meio corpo de Moisés, Jesus e Allan Kardec; que acompanham as pessoas com o olhar, como a examinar o interior dos que delas se aproximam. O Batismo de Jesus e os imensos painéis a óleo que reproduzem a Ascensão e a Ressurreição, elevados sob as abóbadas da Igreja de São Sebastião, em Cachoeira. Suas inumeráveis pinturas memorialísticas com recriações de momentos e fatos históricos, como a passagem de Dom Pedro pela cidade na viagem em que proclamou a independência; a fundação da cidade e a primeira missa na capela do Bom Jesus da Cana Verde; a primeira viagem de trem entre Rio e São Paulo e a inauguração da Estação Ferroviária de Cachoeira. Dizia ele: ”O artista recria a história ao retratar para o imaginário das pessoas, cenas e personagens que ninguém registrou.”.
Nelson Lorena viveu seus últimos anos em meio a seus quadros e seus livros. Afirmava sentir um prazer inefável quando o morno ocaso de sua existência era iluminado e aquecido pela visita dos amigos da aurora da adolescência. Viu com satisfação o início dos trabalhos para a realização de um sonho que acalentou durante meio século, o Parque Municipal às margens do Rio Paraíba. A sua “terra pequenina […] amada Cachoeira, […] cidade oficina, da Nação, pequena obreira!”, como em hino ele a cantou, retribuiu-lhe o amor de filho dedicado homenageando-o com a implantação naquele local do Parque Ecológico Municipal Nelson Lorena; digno espaço destinado à indispensável preservação de sua memória.
Deixou-nos para prosseguir, conforme em vida acreditava, em sua jornada evolutiva em alguma outra dimensão, aos 06 de julho de 1990.
Os créditos são de Milton Lorena, autor do livro “Nelson Lorena O Artista Cachoeirense”.