A LENDA DA MULA-SEM-CABEÇA DA FIGUEIRA
Diz-se que bem antes de o Brasil ser colonizado, os índios puris estabeleceram-se num lugar espaçoso com muita água e de terra fértil. Passaram a chamar o lugar de Terra Aguada, nome que prevalece até hoje. No alto do morro, existiu uma enorme figueira que servia de parada quando os puris se encaminhavam ao alto do outro morro, onde morava uma pequena tribo oriunda da Serra Cataguazes (hoje Mantiqueira), a fim de trocar comida por flechas e outros apetrechos indígenas. O caminho que levava a essa pequena tribo era o antigo caminho da fazenda do sr. Donato Carlomagno. Nas noites de lua cheia, grande número de índios se deslocava de suas tabas e ia até a figueira para cultuar e oferecer dádivas ao deus Tupã e dançar até o raiar do sol. Mucuri, o filho do chefe dos puris, numa dessas noites de lua cheia conheceu a linda Guaíra, filha do chefe dos cataguazes, e teve início então um lindo romance que teria por final um lindo casamento.

A noite sob a figueira ancestral
Mas como tudo que é bom sempre encontra um empecilho para atrapalhar, apareceu um índio puri chamado Ipojuca, que também se apaixonou pela bela Guaíra. Não conseguindo atrair o amor de Guaíra para si nem sufocar seu amor, ele planejou matar Mucuri tão logo tivesse uma oportunidade. Um dia, após a festa da lua cheia, Ipojuca convidou Mucuri para irem até a tribo dos goitacazes e iniciaram a caminhada. Logo que passaram pela figueira, já na Trilha dos Goitacazes, aproveitando uma distração de Mucuri, Ipojuca, com uma adaga rústica, cortou a cabeça de Mucuri e, para não deixar rastros de seu crime, enterrou o corpo e a cabeça ao lado do caminho. Nesse momento, um grande estrondo encheu o céu e uma voz firme e ameaçadora fez as nuvens tremerem. Era a voz do deus Tupã, que indignado com tamanha atrocidade, falou: “Você matou seu amigo para roubar sua amada. Como castigo eu transformo você numa mula-sem-cabeça que vai perambular nas noites e ficará sempre sob a grande figueira até que a linda Guaíra encontre o corpo de seu amado, que será transformado em uma mina de água e que por sua pureza terá o poder de curar todas as doenças. No dia em que Guaíra descobrir o corpo de seu amado, você será enviado às chamas do inferno sem compaixão. Você somente terá descanso nas noites de lua cheia, embaixo da figueira, quando então ninguém o verá.”
Quando Guaíra notou o desaparecimento de seu amado, foi definhando e emagrecendo e logo começaram a aparecer bolhas nas suas lindas pernas. Ipojuca, desesperado, afugentava todos que passavam no caminho para impedir que vissem a fonte de água. Mas com o passar do tempo, a fama da água milagrosa chegou ao conhecimento do chefe pai de Guaíra, que resolveu levá-la até a fonte. A fim de evitar o forte calor do dia, ele resolveu levá-la à tarde quando o sol começava a se esconder.
Nesse momento era a hora em que Ipojuca, a Mula-sem-cabeça, iniciava sua vigília para espantar os que por lá passavam. Quando o grupo do pai de Guaíra se aproximava da fonte, eis que a Mula-sem-cabeça aparece, e o pavor foi tanto que todos fugiram deixando somente o pai com Guaíra ao colo no chão. O velho chefe, mostrando todo o seu valor, apanha seu arco e arremete uma flecha no meio do corpo da mula, que passa a se contorcer de dor, dando tempo para que o pai, com suas mãos cheias de água, várias vezes banhasse as feridas das pernas de Guaíra, que começaram a sumir. Nesse instante, de dentro da mina foi se levantando o corpo de Mucuri com todo vigor, enquanto a Mula-sem-cabeça, contorcendo-se de dor e soltando urros medonhos, foi se transformando no assassino Ipojuca e sendo envolvido por uma coluna de fogo que o levara para o inferno, como ordenara Tupã. Passado algum tempo, na noite de lua cheia embaixo da grande figueira, realizou-se o casamento da linda Guaíra com o príncipe Mucuri, dos puris. Até hoje algumas pessoas que passam pelas ruas ao lado do campo de futebol da Margem Esquerda sentem um calafrio com medo de encontrar a Mula-sem-cabeça. Tudo é possível…