A lenda da sereia da caixa d´água
Há muito tempo, quando o Vale do Paraíba ainda não tinha esse nome, havia uma lenda que era contada entre os índios puris que ali habitavam. O grande deus Tupã, senhor das terras e dos rios, chamou três dos seus protegidos e falou: “Neste momento entrego para sua guarda três rios. Você, Bocaina, fica com o rio que desce a Serra e leva seu nome. Você, Ita, com o rio das Pedras que também leva seu nome; e você, Surubi, o grande rio que tem peixes com seu nome”. Eles passaram a zelar pelos seus rios. Bocaina achou que seu rio precisava de algo novo que o fizesse vibrar. Assim, foi do outro lado da Serra, na grande lagoa onde hoje é Angra dos Reis, e pediu ao seu dono alguma coisa que pudesse melhorar o seu rio. O filho de Netuno, que governava o lugar, deu-lhe de presente uma pequena sereia para que ela encantasse o rio de Bocaina. Bocaina ficou tão feliz com o presente que chamou a pequena sereia de Aina, o final do seu nome. Voltou para a Serra e colocou a sereia nas águas do rio e se deleitava em ouvir seu canto, que ressoava pelas águas e pelas árvores que margeavam o rio. Algum tempo se passou e Bocaina recebeu a visita de seu companheiro Ita para conversarem sobre os rios. Ao passarem por uma curva do rio onde a bela sereia cantava, no coração de Ita despertou uma forte paixão, e ele passou a visitar constantemente o rio Bocaina a fim de ver e conversar com a bela Aina, pois sentiu que seu amor fora correspondido. Tudo ocorria às mil maravilhas até o dia em que Bocaina recebeu a visita de Surubi, que também ao ver a linda sereia ficou apaixonado por ela. Porém, ao saber que ela fora prometida a Ita, retirou-se e com imensa raiva jurou que ela seria dele ou de mais ninguém. E a partir desse dia ficou vigiando o local onde o rio Bocaina desaguava em seu rio à espera de que a bela sereia viesse até sua margem.

Aina e a transformação de Surubi
Demorou, mas um belo dia Aina, querendo conhecer mais o rio em que morava, resolveu descer até a margem do rio dos Surubis. Tão logo Surubi notou a sua presença, agarrou-a à força e levou-a consigo. Como na margem esquerda do rio existia uma grande pedra oca, cheia de água, ele colocou-a lá dentro e cobriu-a com uma grande folhagem. Para impedir que Ita e Bocaina subissem o rio, ele encheu o rio de pedras e corredeiras. Essas pedras e corredeiras iriam mais tarde, em 1560, impedir Brás Cubas de prosseguir viagem para o Norte do Brasil e forçá-lo a parar na margem esquerda do rio (hoje Comuna) e batizar o lugar de Porto da Cachoeira, de onde partiria para o Embaú e o corte na Serra da Mantiqueira com destino a Passa Quatro. Nas margens do rio, habitavam os índios puris, e quando os índias que iam apanhar água na mina ouviam o lamento vindo daquela grande pedra (caixa d’água hoje) e se aproximavam, eram atacadas por enxames de insetos que Surubi tinha deixado para tomar conta da sereia e expulsar os curiosos. Passaram-se muitos anos e Ita e Bocaina não perdiam a esperança de encontrar a linda Aina. Como não conseguiam encontrá-la, pediram ao deus Tupã que os ajudasse. Tupã, muito bondoso, resolveu ajudá-los e veio até eles. Ao chegar ao local onde estava Aina, Tupã, com seus olhos que tudo via e sentia, localizou a linda sereia dentro da enorme pedra. Em seguida, pegou-a suavemente e perguntou o que tinha acontecido, e ela tudo relatou. O deus, triste e enraivecido, chamou Surubi e disse-lhe: “Você provou que não tem caráter e que não merece viver entre os meus protegidos. Deste momento em diante você será simplesmente um surubi como os outros peixes do rio”. Entregou a linda sereia Aina aos braços de seu amado Ita e ao seu protetor Bocaina e providenciou um grande e festivo casamento. O padrinho de casamento foi um grande amigo de Ita e Bocaina chamado Paraíba, que até hoje governa o rio que tem seu nome. Os tempos avançaram e ainda hoje as moças que passam perto de onde foi a caixa d’água na Comuna (já derrubada) comentam a história da linda sereia Aina, da caixa d’água, que atraía as moças que por ali passavam, a fim de que, dentro da caixa d’água, pudesse pedir ajuda a elas, objetivando ir para junto de seu amado Ita e seu pai Bocaina.