Prof Dr José de Miranda Alves

Prof José de Miranda Alves em 1955

José de Miranda Alves nasceu em Silveiras, SP, a 21 de maio de 1911. Era filho do farmacêutico português Antônio Joaquim de Miranda Alves (1868-1933) e de Dona Maria Branco da Gama de Miranda Alves (1884-1953), dama de honrada família silveirense, ligada aos principais troncos paulistas, sendo neta, pela parte materna, do Dr. Vicente Ferreira Carlos Branco (1825-1891), que foi advogado e juiz municipal em Silveiras. Pelo lado paterno, o professor Miranda Alves descendia de tradicional família de músicos portugueses: seu pai foi regente da banda musical de Silveiras por mais de trinta anos; seu avô paterno, Dr. José Joaquim de Miranda Alves (1822-1875), médico, dirigiu a Corporação Musical de Boticas, Trás-os-Montes; seu bisavô, Manoel Joaquim de Miranda Alves (1790-1850), destacou-se como notável violinista nas cidades de Braga e Porto.

José de Miranda Alves fez seus estudos primários em sua cidade natal, onde foi aluno do Professor Hildebrando Martins Sodero, sendo seu preceptor o Padre Antônio Pereira d’Azevedo, que lhe ensinou latim e religião.

Em 1935, formou-se professor pela Escola Normal de Cruzeiro, tendo participado, ativamente, quando ainda estudava, da Revolução Constitucionalista de 1932, servindo no posto de comando do Bom Jesus da Bocaina, o que lhe valeu, mais tarde, a “Comenda da Constituição”, conferida pelo presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo. Nessa guerra civil paulista, foram seus comandantes o Tenente Arídio e o General Euclides de Oliveira Figueiredo, pai do Presidente João Baptista Figueiredo. Ainda normalista, atuou como primeiro violino na orquestra do Maestro Lírio Panicalli.

Entre 1936 e 1938, residiu na capital do Rio de Janeiro, tendo sido também “spalla” na orquestra da Rádio Nacional, onde foi examinado, contratado e dirigido pelo Maestro Radamés Gnatalli (1906-1988). Por esse tempo, quando também tocava no Cassino da Urca, conviveu com grandes mestres da música brasileira, como Pixinguinha (1897-1973), Donga (1890-1974), João da Baiana (1887-1974), Ary Barroso (1903-1964), Lamartine Babo (1904-1963), Noel Rosa (1910-1937) e o grande Maestro Heitor Villa Lobos (1887-1959) – para quem chegou a tocar violino, tendo sido elogiado pelo mesmo, após receber um vibrante impulso: “Vai, toca, rapaz !!!”

Vindo a adoecer, retornou a Silveiras, em 1939 e, já recuperado, foi morar na capital paulista, onde, em 1942, diplomou-se em “Ensino de Música e Canto Orfeônico” pelo Instituto Musical de São Paulo. Foram seus professores, entre outros, Clélia Villa Lobos Rocha e o Maestro João Baptista Julião, seu padrinho, amigo e conterrâneo, que o declarou melhor que o próprio mestre no ensino de manossolfa.

De volta à sua cidade natal, dedicou-se de coração à carreira do magistério público, assumindo, mediante concurso, cadeira de professor no grupo escolar local, cargo que também desempenhou nas cidades de Promissão, Dois Córregos e Nhandeara, no Oeste paulista. Também por concurso público, em 1950, tornou-se diretor de uma escola no bairro do Vinagre, em Lorena, sendo transferido, em 1952, para a direção de outro estabelecimento de ensino, em Cachoeira Paulista. Transcrevo, a seguir, um trecho de sua autobiografia, em que discorre sobre esse período:
“Concursado, assumi, como diretor, o Grupo Escolar Dr. Evangelista Rodrigues, em Cachoeira Paulista, com 24 classes. Mudei-me com minha família para a cidade, para uma ótima casa, na subida do morro Santo Antonio. Dei-me muito bem na nova escola, pois já conhecia quase todas as professoras, um total de 24, com mais 24 substitutas, 5 serventes, uma cozinheira, um dentista e uma auxiliar que fazia toda a escrita do estabelecimento, portanto, 56 funcionários sob minha direção.

Éramos uma bela equipe, com pessoas competentes e dedicadas. Com o auxílio do Prof. Éboli, então delegado de ensino, elevei o grupo para 30 classes. Nosso bom trabalho ganhou fama no estado de São Paulo e no Brasil, devido aos exames em que os alunos eram aprovados com louvor. Por ter o melhor desempenho, em 1954, ano do Quarto Centenário de São Paulo, recebi, do então governador do estado, Nogueira Garcez, a medalha “Prêmio de Alfabetização”, uma vitória para toda a nossa equipe docente, demais funcionários e alunos, aos quais dediquei a comenda. Fui muito bem acolhido na cidade. Tomei parte no coro da igreja matriz, tocando meu violino com Dona Iracema Porto Gomes, irmã do Zé Gominho, que também cantava no coro e estudou com meu irmão Roberto. Foi ele quem me pediu para fazer a música do Hino a Santo Antonio, letra do Dr. Victor Machado de Carvalho, juiz de direito local. Solenes e tradicionais eram as festas do venerável padroeiro da cidade. Estavam sempre presentes várias autoridades eclesiásticas e políticas. De 1º a 13 de junho, anualmente, fazíamos a trezena em honra ao grande santo.

O dentista do grupo escolar era meu velho conhecido, Dr. Roque Cozzi. O médico da cidade, Dr. Darwin Aymoré do Prado, era outro velho amigo que me recebeu de braços abertos. Comecei a me envolver intensamente na sociedade local, pois, sendo diretor do melhor grupo, convidavam-me para tudo: fui eleito 1º secretário do melhor clube social da época; passei a compor a diretoria do Cachoeira Futebol Clube; elegeram-me presidente da banda de música da cidade; assumi uma coluna do jornal “A Notícia”, onde publiquei várias matérias; assim como era o grande Prof. Agostinho Ramos, que foi prefeito, tornei-me orador na cidade, sendo sempre convidado a discursar nas festas cívicas e religiosas, como no Dia dos Operários da Central, no assentamento da primeira pedra do clube, na inauguração do educandário, com a presença da então primeira dama do país, Dona Sara Kubitschek, e em vários outros eventos. Eu gostava de servir a sociedade. Juntando todas as economias, consegui comprar uma casa na rua São Sebastião, cujos fundos davam para a residência do Dr. Darwin e Dona Clarinha Ferreira. Foi bom, pois minhas filhas ficaram amigas de suas filhas. Eu e minha amada esposa Alice, que já tínhamos quatro filhos nascidos em Silveiras, geramos mais dois em Cachoeira, integrando-nos, cada vez mais, aos cachoeirenses, sempre tão gentis conosco. Fomos muito felizes e guardo gratidão e saudades das pessoas com quem convivemos naquela aprazível cidade”.
O Professor Miranda dedicou 42 anos de serviços à educação pública, aposentando-se como supervisor de ensino.
​ Casou-se em Silveiras, aos 18 de janeiro de 1943, com Dona Alice Pinto de Carvalho, filha do Capitão Antonio Pinto de Carvalho Sobrinho (1868-1945) e de Dona Maria Francisca Bueno da Silva (1894-1987), gente de tradicional família, descendente dos primeiros povoadores de Silveiras e região. Desta feliz união nasceram seis filhos: Maria Aparecida, professora e advogada; Maria Auxiliadora, professora; Maria Sertaneja, professora; José Luiz, professor (supervisor de ensino); Antônio Tadeu, analista de sistemas e professor; Paulo Roberto, administrador de empresas.

Bacharel em direito, o Prof. Miranda Alves chegou a advogar em Lorena, nas áreas cível e penal, sendo brilhante na oratória do júri. Destacou-se, ainda, como historiador e escritor, estando seu nome indicado no “Dicionário de Autores Paulistas” – Edição de de 1952. Membro efetivo do Instituto de Estudos Valeparaibanos, deixou a seguinte bibliografia:
​“Silveiras: história e tradição” – publicado em 1977;
​“Terra de 42” – romance histórico (inédito);
​“Silveirenses: contos, crônicas e história” (2011);
​“Memórias” – autobiografia (inédito);
​“Artigos Esparsos” – coletânea de artigos publicados em jornais e revistas do Vale do Paraíba;
​“Discursos” – coletânea de discursos e palestras proferidas ao longo de sua vida.

Excelente orador, José de Miranda Alves saudou várias personalidades, dentre as quais Plínio Salgado, Monteiro Lobato, Villa Lobos, Dona Sarah Kubitschek, Ministra Esther de Figueiredo Ferraz, General Dale Coutinho, dentre outros.
Como músico, compôs valsas, hinos, choros e sambas, dentre os quais destacam-se “Bangalô de Chocolate”, “Minha Cabocla Voltou”, “Capelinha”, “Hino a Santo Antônio”, “Hino a Rodrigues Alves”, “Nossa Casinha”, sendo as três primeiras gravadas em discos, cantadas por Orlando Silva, Neide Fraga e Vanderley Cardoso.
​ Em Lorena, onde residiu por mais de trinta anos, seguindo sua filosofia de “ser sempre útil ao meio em que se vive”, foi inspetor do curso normal da escola “Patrocínio de São José”, professor de música e de língua portuguesa no mesmo estabelecimento, violinista na orquestra do Maestro João Evangelista, violinista na Igreja e na Rádio Cultura, fundador e professor do Conservatório de Música, professor de religião nas escolas “Patrocínio de São José” e “Arnolfo de Azevedo”, orador católico do Colégio “São Joaquim” e da Catedral, colunista nos jornais, secretário da Santa Casa da Misericórdia e do Lar São José, advogado com escritório formado com o doutor Laércio Pires Figueira, diretor da Casa da Cultura, secretário da Corporação Musical “Mamede de Campos”, professor da Faculdade Salesiana.
​ Reconhecendo-lhe o mérito, a Câmara Municipal de Lorena, em 24 de abril de 1980, conferiu-lhe o título de “Cidadão Honorário de Lorena”, e, por indicação do Exmo. Prefeito Municipal, Prof. Arthur Ballerini, foi instituído o troféu “José de Miranda Alves”, prêmio dado à escola “Professora Alice Villela Galvão”, no mesmo ano de 1980.

Mesmo adoecido, em cadeira de rodas, proferiu palestra, em 1988, por ocasião das comemorações do primeiro centenário do nascimento de seu velho mestre e amigo Maestro João Baptista Julião… “um exemplo dignificante”, como bem notou o ilustre Prof. Nélson Pesciotta (in artigo publicado no Jornal Guaypacaré). Sua última aparição em público se deu aos 28 de fevereiro de 1988, quando recebeu uma bela e comovente homenagem do povo silveirense, gente que tanto amava.
Fervoroso cristão, José de Miranda Alves suportou sua doença com admirável resignação, tendo passado os últimos seis anos de sua vida em cadeira de rodas, paralítico, devido a um acidente vascular cerebral que o acometeu. Jamais desanimou, jamais se queixou do tamanho peso de sua cruz, carregando-a até o fim, com humildade, serenidade e inabalável fé em Jesus Cristo. Faleceu em Lorena, aos 11 de julho de 1990, sendo sepultado neste mesmo dia, em sua terra natal, onde o então Exmo. Sr. Prefeito Municipal, Dr. José de Andrade Cardoso, decretou luto oficial por três dias.

Carismático homem, impressionante personalidade, fez de sua vida um verdadeiro exemplo de perseverança, honra e dignidade…
Com saudades, seu neto
Marco Aurélio Alves Costa
Agradeço ao seu neto, Dr. Marco Costa, que redigiu esta espetacular biografia.


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