Valdomiro Silveira

Valdomiro Silveira
Valdomiro Silveira foi advogado, político, constitucionalista, jornalista, orador e escritor, considerado por grande parte dos estudiosos o fundador da literatura regionalista brasileira.
Valdóro, como era conhecido pelos íntimos, nasceu em 11 de novembro de 1873, em Senhor Bom Jesus da Cachoeira – na atual cidade de Cachoeira Paulista. Contudo, a criança não reside por muito tempo em sua terra natal: com dez meses a família muda-se para São Paulo, onde o pai, João Batista da Silveira, forma-se em Direito para, seis anos depois, passar a residir em Casa Branca, também no Estado de São Paulo.
Volta a São Paulo para estudar Direito, curso que conclui aos 22 anos, em 1885, com distinção e como orador da turma. Ainda na Capital é nomeado promotor público em Santa Cruz do Rio Pardo.
Após dois anos na promotoria, muda-se para Casa Branca, onde pratica a advocacia no escritório de seu pai, tendo advogado também na Capital.
Casou-se com Maria Isabel Quartim de Moraes (a quem chama Junia, pois a conhecera num mês de junho), em 1905 e, no mesmo ano, mudou-se para Santos. Com três filhos já de uma união anterior (sobre a qual pouco se sabe), dedica-se quase exclusivamente à prática do Direito.
Durante a Revolução Constitucionalista de 1932 exerceu liderança civil, com ardorosos discursos pelo rádio e pela imprensa escrita.
Foi eleitor Deputado Federal e convidado pelo governador Armando Salles Oliveira para chefiar a Secretaria da Educação e Saúde Pública de São Paulo e, depois, a da Justiça e da Segurança Pública. Demitindo-se da pasta, exerce o cargo de deputado na Assembleia Constituinte de São Paulo, além de atuar como vice-presidente e presidente da Assembleia Legislativa.
Morreu em Santos, em 3 de junho de 1941, num período em que se amargava a inexistência da Democracia no Brasil.
Trajetória literária
É em Casa Branca que o jovem Valdomiro, aos oito anos, inicia seu aprendizado regionalista, estudando o caboclo e seu mundo. As indeléveis impressões da observação da natureza, da fala caipira e do contar de seus causos serão matéria prima para seus escritos.
Com 14 anos seus poemas já circulam nos jornais do interior, mas aos 17 elege a prosa como forma de expressão e dedica-se à leitura dos clássicos de língua portuguesa e universal – especialmente em espanhol, italiano e francês.
Em 1894, com 21 anos, tem publicado no “Diário Popular” de São Paulo o conto “Rabicho”, tido por muitos como o marco inicial do regionalismo literário no Brasil.
Mesmo após mudar-se para Santa Cruz do Rio Pardo continua seus estudos sobre a vida dos caipiras: frequenta “assustados”, “funções” e “pagodes”, participa de pescarias, observa a fauna e a flora, com dedicação especial a ornitologia e, mais ainda, ao modo especial de falar do povo daquela região do Estado. Deste breve período é uma publicação no jornal “O País”, do Rio de Janeiro, e de uma “lereia” remetida por Valdomiro (publicada esta em “A Bruxa”) a Olavo Bilac, que replicou: “Posso, portanto dizer-lhe daqui que você tem talento como o diabo que o carregue!”
Em Casa Branca tornou-se amigo de Euclides da Cunha (que pretendia levar o cachoeirense à Academia Brasileira de Letras) e teve a oportunidade de tomar contato, em primeira mão, com capítulos inéditos de “Os Sertões”. Deste período também são as colaborações com os jornais “Comércio de São Paulo” e “O Estado”.
Havendo declinado da proposta de juntar-se à ABL, em 1909 ajudou a fundar a Academia Paulista de Letras, na qual ocupou a cadeira n.º 29.
Obra
Além da contribuição em jornais e revistas, o autor legou-nos contos que retratam seu universo preferido, editados ao longo de quinze anos e produto do extenso convívio e observação do caipira paulista. São quatro os livros de Valdomiro Silveira, a saber:
* Os Caboclos (1920)
* Nas serras e nas furnas (1931)
* Mixuangos (1937)
* Lereias – histórias contadas por eles mesmos (1945)
Em todas as obras a temática persistente é a da vida do caipira, do sertanejo, mas é no último dos volumes, “Lereias”, que Valdomiro entrega a narrativa ao caboclo mesmo, para que ele conte, com seu linguajar as histórias de sua vida, já ameaçada pelo avanço civilizatório – já vislumbrado pelo autor como aniquilador da forma de vida caipira.
Valdomiro enxergava no caipira um bom sujeito, homem digno e trabalhador que, ameaçado pelos valores estranhos da urbe, testemunha o desfazer de seu mundo e é obrigado a lidar com uma nova realidade – nem sempre com sucesso, mas com uma beleza narrativa de partir a alma.
Diego Leão Diniz
Acadêmico cachoeirense
Fonte: GONÇALVES, Júnia Silveira. Notas biográficas sobre Valdomiro Silveira, in O mundo caboclo de Valdomiro Silveira, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1974.